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 Aquele conto sobre a fila da vacina - PARTE #03

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MensagemAssunto: Aquele conto sobre a fila da vacina - PARTE #03   Aquele conto sobre a fila da vacina - PARTE #03 Empty14/1/2022, 19:36

Oi, gente! Esta é a terceira (e última) parte de um conto que escrevi em um momento meio doido de inspiração. Agradeço por todos os comentários que recebi e espero que curtam! Abraços e até a próxima!

É claro que meus olhos são atraídos rapidamente pela visão de Joaquim. Ele pode ser até parecido com o Igor, se alguém for do tipo que só observa as características de forma rápida. Assim como meu ex-melhor-amigo-de-infância, Joaquim tem os cabelos enrolados em cachos perfeitos, pele morena perfeita e olhos escuros, mas ele é um garoto especial. Noto o anel preto em seu dedo anelar esquerdo e brigo mentalmente comigo por nunca me lembrar se existe algum motivo para isso, mas com certeza não representa a assexualidade.
Acho que meu corpo já está programado para procurar pessoas que também usem anéis como o meu, mas é mais fácil encontrar a agulha no maldito palheiro do que isso. Sei que se trata de um simples símbolo, mas, para mim, é como se eu pudesse sair do meu armário e dizer que está tudo bem ser como eu, mas enfim. Acontece.
Me lembro da época em que Joaquim e eu éramos amigos (do tipo nossas mães eram amigas e nossos irmãos, também, além do fato de sermos vizinhos. Logo, precisávamos ser amigos). Confesso que, naquela época, eu o achava um chato e só o aguentava porque era uma obrigação. Mas, céus! Ele está gato demais agora! E tem o estilo perfeito... O estilo pelo qual eu sou apaixonado, ainda que meus interesses platônicos sumam assim que alguém me dá bola. Aposto que, se eu chegasse perto o suficiente, desmaiaria pela delícia de seu perfume. Ele provalmente não se lembra de mim, mas não consigo evitar de suspirar ao perceber a beldade que esse rapaz está no auge de seus prováveis 19 anos.
Saio de meu devaneio ao perceber a minha paixão platônica dos próximos cinco minutos indo embora após ter aplicado a sua vacininha da salvação. Volto a prestar atenção em minha mãe e percebo seu olhar fixo em mim, provavelmente pelos últimos minutos. Ela me olha como meu pai me olhava antes de eu sair do armário como gay... e depois assexual/arromântico. Uma bagunça de história, conto outra hora.
Está bem claro que ela percebe meus olhares para rapazes maravilhosos como Joaquim, mas não comenta nada, pois provavelmente prefere que eu abra a boca e puxe o assunto primeiro. Tanto faz, só falarei disso caso seja realmente necessário por conta de um futuro casamento platônico com algum cara gato e com quem adotarei vários animais.
Senha 95.
Ótimo, finalmente está quase chegando a minha vez. Sinto que meu corpo todo está enrijecido – no sentido de ter ficado tanto tempo preso nessa cadeira que sinto como se tivesse feito muitas horas de academia – e percebo que precisarei tentar me movimentar um pouco antes de receber a vacina, ou acabarei caindo na frente de todos.
Ergo meu corpo discretamente do assento e mexo minhas pernas calmamente, porque sinto que essa situação não é nada comum e todos estranhariam minhas atitudes. É assim que funciona a minha mente: sempre sinto que todos me observam o tempo todo, prontos para gravarem as minhas pequenas desgraças diárias, ainda que eu saiba que, logicamente, ninguém se importa tanto assim.
Pego meu celular e finjo estar mexendo no aparelho quando um trio de adolescentes passa do meu lado. É engraçado pensar no abismo de diferença que pessoas de idades parecidas podem ter, principalmente quando se é um introvertido assexual no meio de galeras assumidamente extrovertidas e totalmente “exploradoras da própria sexualidade”.
Sinto um embrulho no estômago ao perceber a próxima dupla que está indo para a fila da vacinação: Giullia e Larissa, duas garotas que foram parte do meu universo em momentos diferentes e, ainda assim, conseguem trazer à tona meu pior lado, ou seja, uma tentativa de ser hétero.
Há muitos anos, tive que escolher alguém como “crush hétero” para mim (ou seja, na minha cabeça, era a pessoa que eu beijaria algum dia caso tivesse a oportunidade) e, obviamente, a selecionada foi a garota mais popular da classe: Giullia.
Ela é bonita, para os padrões da nossa sociedade. Tem olhos verdes claros (e sempre falava com orgulho dessa característica, por conta da “raridade de sua beleza”), cabelos castanhos levemente ondulados e se vestia com o estilo possível dentro de um uniforme escolar. Nos conhecemos quando entrei no sexto ano, e desde o sétimo ou oitavo, ela foi minha tentativa de paixonite adolescente.
Claro que tentei realmente gostar dela, mas nunca deu certo. Sei que tive meus ataques de ciúmes por conta do que outros garotos falavam sobre Giullia, mas, olhando para o passado, percebo que eu nunca me interessei de fato pela menina e, honestamente, não estava nem aí para quem ela gostava.
O problema é que Giullia sempre foi muito cheia de si, e acreditava piamente que eu havia me apaixonado por ela. Éramos bons amigos até o fim do segundo ano do ensino médio, quando decidi mudar de colégio. Conversar com Giullia é fácil e sempre foi muito menos doloroso do que ter certos amigos tóxicos ao meu redor, mas, é claro, ela se convenceu de que era minha paixão (eu disse, eu tentei de verdade, mas nunca consegui gostar dela! Problema que só descobri depois de muitos anos e que me ajudaria a esclarecer minha arromanticidade e assexualidade).
Senti falta dela quando troquei de escola, tivemos nossas conversas por um ou dois meses e depois nos afastamos de vez. Até o dia em que tive a nada brilhante ideia de chama-la para conversar no Instagram. Pior. Decisão. Da. Minha. Vida.
Ela continua sendo cheia de si e ainda se acha a grande garota por quem todos eram apaixonados no ensino médio, e essa foi a primeira coisa que ela me falou quando me respondeu. É uma garota babaca, ou talvez seja apenas uma nice girl que acha que consiga todos com sua bondade. Nunca tive coragem de contar a ela que nunca me apaixonei nem me interessei de verdade por quem ela era, apesar de ter adorado ter sua amizade enquanto durou. Talvez algum dia voltemos a nos falar e eu seja capaz de abrir todo o jogo – provavelmente será no momento em que eu estiver no altar platônico com meu noivo imaginário, astro de cinema –, mas não sei se sua amizade vale o esforço.
Enquanto isso, Larissa é uma daquelas adolescentes idiotas que acreditamos existir apenas em filmes, como Meninas Malvadas ou Garotas S.A. Sempre a vi como a maldade em pessoa, sempre pronta para humilhar seu trio poderosa: ela e suas duas capangas, que lambem o chão por onde Larissa passa. Durante o terceiro ano, me senti péssimo por não poder ajudar Clara – uma das capangas, fora dos padrões de beleza (não muito alta e não magra) – das agressões verbais proferidas por Larissa e a terceira garota do grupo.
Fui parar em um colégio em que todos eram meio “família”, viveram, cresceram e estudaram juntos a vida toda, então é quase compreensível toda essa dependência que Clara tinha em relação à Larissa, mas continua sendo totalmente injusto tudo pelo que a menina passou. Sem contar que Clara era super mais bacana do que Larissa, era uma jovem humilde e não destratava das pessoas – mas até mesmo os professores eram cruéis com ela –, então realmente desejo o melhor para ela.
Larissa, a garota que se utilizou de cotas injustamente (segundo as pessoas da nossa antiga turma, não estou aqui para julgamentos) para conseguir a vaga na faculdade e Larissa, a garota que parecia não se importar em passar por cima das pessoas para conseguir o que quisesse. Tudo isso nos momentos do ensino médio de um colégio quase familiar e vindo de uma cidade do interior, mas ainda assim, é péssimo quando se trata de uma menina de apenas 18 anos.
Enfim, sinto o ar rarefeito ao meu redor. Efeito da fumaça tóxica que elas duas juntas espalham por aí. Espero que elas se afastem para voltar a encarar o além em minha frente: que os céus me livrem de ser obrigado a enfrentar duas meninas malvadas de uma única vez e, pior ainda, como aliadas uma da outra!
Olho rapidamente para meu relógio e percebo que pelos menos 15 minutos se passaram desde que iniciei a pensar em todas essas coisas. Curioso como o tempo passa rápido na nossa cabeça quando estamos presos em pensamentos aleatórios.
Ouço a atendente chamar o número 105 e sorrio por baixo da máscara, totalmente animado em saber que, em breve, sairei dessa situação nada bacana na qual estou preso neste momento. Rebecca deixou de prestar atenção há alguns minutos, aparentemente, pois a vejo totalmente animada com uma partida de Candy Crush. Não estou em posição de julga-la, confesso que adoro esse joguinho às vezes.
Batuco meus dedos sobre a capinha do meu celular, esperando ainda mais ansiosamente pelo momento de ser chamado. Suspiro aliviado ao ouvir o número 108 alguns minutos depois e sigo até o balcão, onde entrego meus documentos e espero pela vacinação. Sinto que todo mundo está prestando atenção em mim, mas consigo me desvencilhar dessa ideia enquanto recebo a pequena dose.
Agradeço à enfermeira e sigo para fora, já vendo que minha mãe me esperava na frente do local de vacinas. Conversamos pelo tempo de volta até minha casa e agradeço a ela quando chegamos em frente ao edifício em que moro com meu pai.
– Tchau, filho! Me ligue se precisar de mais algo. Fala pro seu pai que entrego o dinheiro na próxima semana, até logo! – ela acena animadamente para mim antes de arrancar com o carro. Dou um breve tchau com a cabeça após responder suas despedidas e agradeço outra vez pela carona.
Suspiro aliviado por ter terminado mais um dia de interação social. A vida de alguém com ansiedade social é assim: até mesmo uma simples vacina pode se tornar um grande desafio, mas precisamos tentar seguir firme.
Pego Felix em meu colo ao entrar no pequeno apartamento e sigo com ele até meu quarto, onde nos deitamos por alguns minutos a fim de recuperar a energia mental que precisei gastar nesse passeio.
Não penso em mais nada, apenas me deixo ser embalado pelo sono, totalmente orgulhoso de não ter tido nenhum problema nesse dia e com a certeza de que o próximo dia seria um pouco menos pior. Afinal, agora minha esperança está um pouco maior e já não preciso sentir que cada saída é uma batalha contra um inimigo invisível. Por mais complicados que sejam nossos dias, não há nada como o aconchego de um gato ronronando em nossos braços até o adormecer.



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MensagemAssunto: Re: Aquele conto sobre a fila da vacina - PARTE #03   Aquele conto sobre a fila da vacina - PARTE #03 Empty20/1/2022, 15:32

Muito bom mesmo, amei o seu o conto!!
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